Três horizontes de IA no setor da educação

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É tempo de skilling e é tempo de educação com IA. A UNESCO já apontou para isso dedicando o Dia Internacional da Educação em 2025 para a Inteligência Artificial. Isso foi em 24 de janeiro, quando o dia foi usado para discutir sobre as oportunidades e desafios da inteligência artificial em nosso tempo. Na era de IA, vivemos um grande dilema entre implantação rápida e planejamento criterioso, enquanto muitos projetos ainda sofrem com a busca insana por profissionais preparados com experiência no desenvolvimento de IA e agentes, atualizados na mesma velocidade com que novas ferramentas, modelos e arquiteturas aparecem.

A adoção de agentes de IA e GenAI em diferentes indústria ganhou enorme visibilidade entre 2024 e 2025. Mas em setores como da educação, os debates ainda estão muito centrados em casos de uso táticos (chatbots para alunos, tutores virtuais, organização de agendas de aulas, etc.) e pouco sobre impactos sistêmicos, como: ética de dados estudantis, viabilidade financeira, gap de capacitação docente, e riscos de ampliação de desigualdades. O tema é bastante amplo e muitas vezes desafiador, não se restringindo às realidades apenas brasileiras.

Por isso, pensei em preparar esse artigo, propondo alguns caminhos e alternativas para esse planejamento, um esboço de roadmap mais simples para líderes de escolas na educação básica (nos Estados Unidos e Canadá conhecidos como K-12), ensino médio, universidades e mesmo instituições relacionadas a capacitação, usando a lente de um modelo de planejamento conhecido, o Three Horizons, para orientar decisões para os próximos meses. Faz sentido?

Onde estamos em julho de 2025?

Em meados de 2025, observamos avanços importantes para o uso de inteligência artificial generativa na educação. Vale destacar que essa análise leva em consideração esse tempo pós-ChatGPT, com uso disseminado de modelos de LLM, IAs generativas e mais recentemente, de agentes de IA. Segundo relatórios do CENGAGE Group de Abril de 2025 (referências no final do artigo), quase metade dos docentes no ensino superior já utiliza essas ferramentas de IA, o que representa um salto de 24 % em 2023 para cerca de 49 % em 2025; e 45 % dos educadores universitários manifestam percepção positiva sobre seu uso. Segundo o GALLUP, em artigo de junho de 2025, escolas públicas em K-12 relatam que três em cada dez professores utilizam IA semanalmente, economizando em média seis semanas por ano com automação de tarefas administrativas e preparação de aulas. Projetos inovadores, como micro escolas e células de ensino, já aplicam tutores de IA para personalização imediata de conteúdos, adaptando ritmo e estilo conforme o perfil dos alunos, como apresentado pelo instituto Hunt em junho deste ano. São apenas alguns exemplos que precisam estar em nosso radar, sobre o impacto e a adoção estruturas de GenAI.

Porém, essa transformação também é dual. Por um lado, a IA tem potencializado a personalização pedagógica, criando planos diferenciados de ensino, recursos audio visuais e apoio imediato para o corpo docente, especialmente para alunos multilíngues ou com dificuldades, elevando aequidade e a engajamento em salas de aula. Por outro, surgem fortes desafios em governança e integridade acadêmica. Apenas 40 % das instituições de ensino superior possuem políticas formais de uso aceitável de IA, isso segundo estudo da EDUCAUSE Review, de Maio de 2025. E 92 % dos universitários no Reino Unido admitiram usar GenAI, pressionando os métodos tradicionais de avaliação, segundo matéria do THE GUARDIAN. Já vemos preocupações expressas por líderes educacionais de que a IA pode reduzir o pensamento crítico e criar dependência entre alunos. E claro, existem aqueles que comparam essas preocupações com a era inicial dos buscadores de internet.

Você se lembra do Archie, Lycos, Yahoo, AltaVista, Google ou Bing? Ou agora você só fala com ChatGPT, Claude, Gemini, Grok, Copilot, Perplexity, Mistral ou Llama? 😊

Além disso, iniciativas globais de ONGs e governos estão criando suas próprias ferramentas de IA para atender contextos linguísticos e culturais diversos, como o chatbot Ferby, usado na Índia por milhões pessoas, especialmente entre populações mais afastadas de grandes centros. Esses esforços ressaltam que a IA no setor de educação não é só automação, mas também uma alavanca para inclusão, desde que acompanhada por governança robusta, capacitação docente e infraestrutura.

Esses elementos mostram um panorama misto: avanços reais em eficiência e personalização, contrapostos a riscos regulatórios e pedagógicos, destacando a urgência de abordagens estruturadas para integrar GenAI de forma saudável.

O que ainda não está no radar, mas deveria estar?

Atualmente (julho de 2025), vários temas críticos relacionados à GenAI na educação ainda recebem pouca atenção estratégica, mas deveriam estar no radar imediato de executivos:

  • A Desigualdade Digital 2.0 se intensifica com agentes genéricos: as soluções de IA estão sendo utilizadas em ambientes bem estruturados, enquanto muitas escolas públicas e ONGs sem infraestrutura adequada ficam para trás. O risco é criar uma nova camada de exclusão, em que apenas alunos com acesso a plataformas modernas se beneficiam da personalização e suporte do GenAI, ampliando ainda mais o abismo social educativo.
  • Na governança de dados estudantis, vemos agentes com coleta potencialmente irregular de dados sensíveis, sem processos claros de consentimento ou conformidade explícita com GDPR ou LGPD. E essa falta de estrutura já gera multas e danos reputacionais, além de minar a confiança de pais, professores e alunos em tecnologias de IA. Muitas universidades e K‑12 ainda carecem de políticas formais para uso ético desses agentes, enquanto que conceitos e princípios de IA Responsável são praticamente ignorados do grande público.
  • Também há impactos no bem-estar docente: ferramentas de IA mal integradas podem sobrecarregar professores com novo software, gerar frustração e diminuir motivação, se não vierem acompanhadas de capacitação pedagógica e suporte emocional. Embora existam iniciativas para formar os docentes, a adoção ainda é pontual, sem programas estruturados e contínuos.

Todos esses pontos são hoje negligenciados em grande parte dos debates do setor, por isso, se tornam oportunidades estratégicas para quem lidera e quer moldar a governança, inclusão e capacitação na Era da IA na educação.

O que é mesmo uma abordagem de 3 Horizontes?

O modelo de 3 horizontes, ou “Three Horizons Framework“, foi desenvolvido pelo McKinsey Center for Business and Environment (sendo amplamente usado em gestão da inovação) e é uma forma de planejar transformações ao longo do tempo, equilibrando o presente com a necessidade de inovação futura. Ele parte do princípio de que qualquer organização ou setor precisa administrar 3 tipos de iniciativas simultaneamente:

HORIZONTE 1 (H1): OTIMIZAÇÃO DO PRESENTE

Refere‑se às operações e práticas já existentes, que sustentam o dia a dia hoje. O foco é a eficiência operacional, manutenção e pequenas melhorias incrementais. Também podemos dizer que é sobre a defesa do negócio atual. Exemplos no contexto educacional seriam:

  • Uso imediato de chatbots para FAQ de alunos.
  • Automatizar tarefas administrativas (presença, correções).
  • Capacitar professores para uso básico de GenAI em planejamentos.

HORIZONTE 2 (H2): ESCALA SELETIVA E NOVOS MODELOS

Refere-se às novas oportunidades de crescimento que já existem como pilotos ou tendências emergentes, mas ainda não estão maduras para serem dominantes. Aqui, o foco é explorar, experimentar, escalar iniciativas promissoras, que já mostraram algum potencial. Alguns exemplos seriam:

  • Programas piloto com agentes personalizados para alunos com necessidades especiais.
  • Parcerias público‑privadas para levar IA a escolas rurais.
  • Iniciar integração curricular com módulos de alfabetização em IA e ética digital.

HORIZONTE 3 (H3): INOVAÇÃO TRANSFORMADORA

Finalmente, o H3 cobre ideias de longo prazo que ainda não são viáveis hoje, mas que podem redefinir a educação no futuro. O foco está na visão de futuro, pesquisa, testes em áreas experimentais, ainda incertas. Por exemplo:

  • Currículos adaptativos dinâmicos baseados em IA, que evoluem em tempo real.
  • Tutores 100 % autônomos e confiáveis para educação universal.
  • Novas credenciais digitais globais reconhecidas por IA e blockchains.
  • Adoção de Semantic Web + Agentes de IA, para diferentes domínios de conhecimento e ensino.

Ou seja, em tempo de planejamento de adoção de GenAI em diferentes setores, o framework de 3 horizontes é muito bem vindo e tem aplicação direta para a educação.

Um roadmap de +18 meses para considerar

Quase montamos o plano completo na seção anteior, mas a abordagem Three Horizons pode ficar ainda mais tática, pensando num roadmap onde cabem as iniciativas de curto, médio e longo prazo.

Então vejamos um exemplo ampliado para adoção de GenAI.

Horizonte 1 (Agora – Dez/2025): Otimização e experimentação controlada.

Alguns casos de uso imediatos e de baixo risco seriam:

  • Tutores virtuais para disciplinas básicas.
  • Agentes administrativos para reduzir carga burocrática em universidades e ONGs.
  • Capacitação inicial de docentes para uso consciente de agentes.
  • Estabelecimento de políticas mínimas para privacidade e ética.
  • Pilotos com acompanhamento pedagógico rigoroso.
  • Avaliação de fornecedores: priorizar interoperabilidade e portabilidade de dados.

Horizonte 2 (2026–início de 2027): Escala seletiva e diferenciação.

Seguindo o framework, projetos interessantes seriam:

  • Diferenciação por experiências personalizadas para alunos com necessidades especiais.
  • Integração de agentes nos sistemas curriculares oficiais (ao invés de apenas complementares).
  • Início de redes educacionais interoperáveis com IA para compartilhamento de conteúdo e práticas.

Horizonte 3 (2027+): Inovação transformacional

  • Currículos adaptativos e dinâmicos, co-desenhados por IA e educadores.
  • Novos modelos de avaliação baseados em evidências de aprendizado geradas por agentes.
  • Desenvolvimento de “agentes de IA educacionais de confiança” open source em dominios semânticos.
  • Estruturação de regulações suportando a presença de IA de forma nativa em diferentes redes de ensino.

Recomendações estratégicas imediatas

Como em qualquer jornada de skilling, o primeiro passo é sempre importante. Para líderes já começarem a agir ainda em 2025, vale considerar:

  • Criação de comitês internos multidisciplinares para IA educacional.
  • Mapeamento de riscos regulatórios de dados estudantis nos projetos piloto.
  • Investimento em upskilling docente para uso crítico e ético de IA.
  • Envolvimento direto dos times de conformidade, segurança, GDPR e LGDP nas iniciativas de IA desde o começo.
  • Engajamento com a comunidade para mitigar receios e ampliar aceitação social.
  • Exploração de consórcios de compartilhamento de infraestrutura entre instituições.
  • Mapeamento de diferentes soluções, modelos e ferramentas de aceleração tecnológica como plataformas de IA, interfaces e catálogo de modelos indicados para as necessidades do setor.

Microsoft Elevate

E nesse contexto, a Microsoft acabou de anunciar (foi semana passada, 9 de julho) o programa Microsoft Elevate, uma ação com o objetivo de ampliar o skilling e o impacto de IA em salas de aula, nas organizações e em toda a sociedade.

Confira o portal: https://www.microsoft.com/en-us/elevate

Microsoft Elevate: https://blogs.microsoft.com/on-the-issues/2025/07/09/elevate/

Essa iniciativa está conectada ao programa AI For Good Lab e ao Microsoft AI Economy Institute, que coordenam as ações de impacto na sociedade para o uso consistente e amplo de AI com responsabilidade.

Bastante coisa acontecendo e mais por vir!

Conclusões

Talvez o maior risco para o setor de educação em relação a IA não seja “ficar para trás”, mas sim adotar a IA de forma apressada e mal planejada, ampliando desigualdades e esgotando recursos sem retorno educacional real. Nesse contexto, o papel do líder hoje é desenhar uma jornada equilibrada entre inovação e responsabilidade.

Referências adicionais

UNESCO

  • https://www.unesco.org/en/articles/unesco-dedicates-international-day-education-2025-artificial-intelligence

CENGAGE GROUP

  • https://www.cengagegroup.com/news/perspectives/2025/genai-in-higher-education—positive-sentiment-builds-with-rapid-transformation/?utm_source=chatgpt.com “Generative AI in Higher Education | Use of GenAI in Education”

GALUUP

  • https://news.gallup.com/poll/691967/three-teachers-weekly-saving-six-weeks-year.aspx?utm_source=chatgpt.com “Three in 10 Teachers Use AI Weekly, Saving Six Weeks a Year”

HUNT

  • https://hunt-institute.org/resources/2025/06/ai-tutoring-alpha-school-personalized-learning-technology-k-12-education/?utm_source=chatgpt.com “AI Tutoring in Schools: How Personalized Learning Technology is …”

ER

  • https://er.educause.edu/articles/2025/5/in-the-room-where-it-happens-generative-ai-policy-creation-in-higher-education?utm_source=chatgpt.com “In the Room Where It Happens: Generative AI Policy Creation in …”

THE GUARDIAN

  • https://www.theguardian.com/education/2025/feb/26/uk-universities-warned-to-stress-test-assessments-as-92-of-students-use-ai?utm_source=chatgpt.com “UK universities warned to ‘stress-test’ assessments as 92% of students use AI”

Foto de Por Waldemir Cambiucci
Por Waldemir Cambiucci

Dr. Waldemir Cambiucci é um especialista em TI com mais de 30 anos de experiência, reconhecido por sua atuação em transformação digital, inteligência artificial e computação quântica no Brasil e no exterior. Atuou na Microsoft Brasil por mais de duas décadas, passando por áreas de consultoria, arquitetura, soluções e enterprise. Participou do lançamento de dois centros de tecnologia no país, o Microsoft Technology Center (MTC), onde atuou como arquiteto-chefe e diretor para centenas de projetos de diversas indústrias.

É Engenheiro de Computação, Mestre e Doutor pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), com certificações do MIT xPRO, IBM Qiskit Dev, INSEAD e DelftX, conduzindo pesquisas com foco em arquitetura de computadores quânticos, computação quântica distribuída e algoritmos. É membro da Sociedade Brasileira de Computação (SBC), da IEEE Quantum Technical Community e da IEEE Computer Society, com dezenas de artigos acadêmicos publicados em congressos e revistas internacionais. Também foi Azure Quantum Ambassador pela Microsoft entre 2022 e 2025, conduzindo iniciativas em quantum computing e post-quantum cryptography.

Colunista da AINEWS, é coautor dos livros “Reference Guide for Quantum Computing – A Microsoft Garage Project” e “Microsoft Azure: Arquitetura Bem Definida”, e autor de “Uma Introdução sobre IA, IOT, CLOUD e QUANTUM”. É palestrante com presença frequente em fóruns de tecnologia, think tanks e eventos de inovação no Brasil e no exterior. https://www.linkedin.com/in/wcamb/.

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Dr. Waldemir Cambiucci é um especialista em TI com mais de 30 anos de experiência, reconhecido por sua atuação em transformação digital, inteligência artificial e computação quântica no Brasil e no exterior. Atuou na Microsoft Brasil por mais de duas décadas, passando por áreas de consultoria, arquitetura, soluções e enterprise. Participou do lançamento de dois centros de tecnologia no país, o Microsoft Technology Center (MTC), onde atuou como arquiteto-chefe e diretor para centenas de projetos de diversas indústrias.

É Engenheiro de Computação, Mestre e Doutor pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), com certificações do MIT xPRO, IBM Qiskit Dev, INSEAD e DelftX, conduzindo pesquisas com foco em arquitetura de computadores quânticos, computação quântica distribuída e algoritmos. É membro da Sociedade Brasileira de Computação (SBC), da IEEE Quantum Technical Community e da IEEE Computer Society, com dezenas de artigos acadêmicos publicados em congressos e revistas internacionais. Também foi Azure Quantum Ambassador pela Microsoft entre 2022 e 2025, conduzindo iniciativas em quantum computing e post-quantum cryptography.

Colunista da AINEWS, é coautor dos livros “Reference Guide for Quantum Computing – A Microsoft Garage Project” e “Microsoft Azure: Arquitetura Bem Definida”, e autor de “Uma Introdução sobre IA, IOT, CLOUD e QUANTUM”. É palestrante com presença frequente em fóruns de tecnologia, think tanks e eventos de inovação no Brasil e no exterior. https://www.linkedin.com/in/wcamb/.

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião da AINEWS ou de seus controladores.

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